Na boca da madrugada, hora do vivo febril, pensei que tivesse, apesar da antivocação do dizer disto, de sistematizar - e em certeza equivoco-me, mas já não há tempo ao arremedo e quase nada - o horror, o maravilhoso horror que me tem causado uma idéia. Idéia fixa, razão pela, ou com, qual Brás Cubas caiu doente e tantos outros mortos foram e hão de ir àquela margem do rio.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
sábado, 20 de junho de 2009
Pisou na bola, é gol*
“nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez”
(Paulo Leminski)
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez”
(Paulo Leminski)
Ontem meus alunos estavam loucos para fugir da escola e assistir ao jogo de futebol pela televisão.
Tem gente que gosta de futebol. Minha predileção é pela etimologia.
Provavelmente, vocês sabem o que é etimologia; entretanto, a criatura que digitou essas bem traçadas linhas – Tcharan: EU! - há de se tornar escritora de gabarito, e meus amigos, obviamente, quererão compartilhar a sucessão de letrinhas aqui com toda a sorte de gente. É, portanto, necessário recorrer ao grande Aurélio (sem brincadeira, porque a edição da qual colei o verbete é aquela revista e ampliada – pesada, além de grande)
---
etimologia. [Do gr. etymología, pelo lat. etymologia.] S. f. 1. Origem de uma palavra. 2. Parte da gramática que trata da origem das palavras.
---
E daí?
Daí fiquei pensando ontem na origem etimológica da expressão “pisar na bola”.
“Pisar na bola” é equivalente a dar “tiro pela culatra”, figura muito usada pela minha mãe; fazer “cagada”, dita ultimamente até pelo sujeito com prisão de ventre crônica; dar “mole pra Cojaque”, preferida do Bezerra da Silva. Em resumo, “pisar na bola”, semanticamente, significa cometer um erro.
E quem nunca aprontou disso?
Ali na minha infância, encontrei exemplo: quando eu era criança pequena lá em Barbacena e o Chico Anysio ainda aparecia na Rede Globo, a pena contra quem errava, promulgada pelos professores da escola na qual estudei, era nota em tinta vermelha – maior humilhação.
Por outro lado, na hora do recreio, se eu brigava e não queria olhar nunca mais a cara do colega que não me convidou pra festa de aniversário, ou me chamou de gorda, ou puxou meus cabelos na fila da cantina, ou quebrou a ponta do meu lápis de cor azul, aqueles mesmos juízes – ou professores, que nesse caso dava tudo na mesma – obrigavam a gente a fazer as pazes e se abraçar, dando, ainda por cima, o maior sermão sobre a necessidade de pedir desculpas pelos nossos erros, relevar e perdoar os erros alheios.
Passados anos desde minha experiência escolar, tive notícias dum sujeito formidável, do qual vocês já devem ter ouvido falar, que escreveu o seguinte: “não há vida sem correção, sem retificação”.
Paulo Freire escreveu isso baseado na concepção de que cometer erros é inerente ao ser humano porque aprender é uma capacidade inexorável à nossa espécie e, como afirma a máxima, é errando que se aprende.
Se errando se aprende, acho que errar está entre as atividades mais saudáveis a praticarmos, empatando com os esportes, que, como ensinou uma professora com a qual eu trabalho, além de contribuírem com o bom funcionamento do organismo quando praticados regularmente, são atividades altamente educativas.
Essa aproximação entre erro e esporte, enquanto atividades pedagógicas, deve ter dado origem à tal expressão relativa à pisada na bola: se o Ronaldinho pisasse na bola, é provável que nunca tivesse assinado contrato milionário com a Nike - talvez isso evitasse transtornos como escândalos sobre envolvimento com travestis, mas isso não vem ao caso.
A questão é que “pisar na bola” deve ter surgido como metáfora esportiva, tendo sua origem dentro dum estádio de futebol.
E eu, que, por outro lado, sempre tive aversão à paixão desmedida da gente toda pelo futebol, passei a entender que “pisar na bola”, em sua origem etimológica e, depois, em seu sentido metafórico, é verdadeiramente o real objeto de adoração do público.
Se todos os atletas e seus times tivessem atuação impecável, não teríamos partida porque ninguém se atreveria a ir ao Morumbi ou ligar a tevê para assistir a uma encenação mecânica, sem gol porque os goleiros seriam perfeitos, sem drible porque o meio de campo seria perfeito, sem vitória porque os adversários seriam perfeitos.
Daí fiquei pensando ontem na origem etimológica da expressão “pisar na bola”.
“Pisar na bola” é equivalente a dar “tiro pela culatra”, figura muito usada pela minha mãe; fazer “cagada”, dita ultimamente até pelo sujeito com prisão de ventre crônica; dar “mole pra Cojaque”, preferida do Bezerra da Silva. Em resumo, “pisar na bola”, semanticamente, significa cometer um erro.
E quem nunca aprontou disso?
Ali na minha infância, encontrei exemplo: quando eu era criança pequena lá em Barbacena e o Chico Anysio ainda aparecia na Rede Globo, a pena contra quem errava, promulgada pelos professores da escola na qual estudei, era nota em tinta vermelha – maior humilhação.
Por outro lado, na hora do recreio, se eu brigava e não queria olhar nunca mais a cara do colega que não me convidou pra festa de aniversário, ou me chamou de gorda, ou puxou meus cabelos na fila da cantina, ou quebrou a ponta do meu lápis de cor azul, aqueles mesmos juízes – ou professores, que nesse caso dava tudo na mesma – obrigavam a gente a fazer as pazes e se abraçar, dando, ainda por cima, o maior sermão sobre a necessidade de pedir desculpas pelos nossos erros, relevar e perdoar os erros alheios.
Passados anos desde minha experiência escolar, tive notícias dum sujeito formidável, do qual vocês já devem ter ouvido falar, que escreveu o seguinte: “não há vida sem correção, sem retificação”.
Paulo Freire escreveu isso baseado na concepção de que cometer erros é inerente ao ser humano porque aprender é uma capacidade inexorável à nossa espécie e, como afirma a máxima, é errando que se aprende.
Se errando se aprende, acho que errar está entre as atividades mais saudáveis a praticarmos, empatando com os esportes, que, como ensinou uma professora com a qual eu trabalho, além de contribuírem com o bom funcionamento do organismo quando praticados regularmente, são atividades altamente educativas.
Essa aproximação entre erro e esporte, enquanto atividades pedagógicas, deve ter dado origem à tal expressão relativa à pisada na bola: se o Ronaldinho pisasse na bola, é provável que nunca tivesse assinado contrato milionário com a Nike - talvez isso evitasse transtornos como escândalos sobre envolvimento com travestis, mas isso não vem ao caso.
A questão é que “pisar na bola” deve ter surgido como metáfora esportiva, tendo sua origem dentro dum estádio de futebol.
E eu, que, por outro lado, sempre tive aversão à paixão desmedida da gente toda pelo futebol, passei a entender que “pisar na bola”, em sua origem etimológica e, depois, em seu sentido metafórico, é verdadeiramente o real objeto de adoração do público.
Se todos os atletas e seus times tivessem atuação impecável, não teríamos partida porque ninguém se atreveria a ir ao Morumbi ou ligar a tevê para assistir a uma encenação mecânica, sem gol porque os goleiros seriam perfeitos, sem drible porque o meio de campo seria perfeito, sem vitória porque os adversários seriam perfeitos.
Ainda não sou fã de futebol, não uso tinta vermelha contra meus alunos e hoje eu abraçaria o colega que não me convidou pra festa de aniversário, ou me chamou de gorda, ou puxou meus cabelos na fila da cantina, ou quebrou a ponta do meu lápis de cor azul - provavelmente, amarraria antes o cadarço dum tênis dele no do outro pra que caísse de queixo no chão, o que seria minha bruta pisada na bola -, afinal, entendi que todos erramos e por isso viver é muito mais divertido que assistir à aula de português da Carol.
*escrito em 18 de junho e tardiamente publicado em virtude da correria
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Eco além do grito: Il Decameron
"La gioia di vivere che c'era nel Boccaccio proviene dall'ottimismo del Boccaccio. L'ottimismo del Boccaccio era un ottimismo storico (...) nel momento in cui lui viveva, esplodeva quella meravigliosa e grandiosa novità(...): nasceva la Borghesia” (Pier Paolo Pasolini)
Decameron toma forma a partir da descrição duma peste avassaladora, motivo pelo qual sete mulheres e três rapazes procuram refugiar-se numa casa de campo. Ociosos, sem televisão ou baralho, nossos jovens desenvolvem ali a trama de narrativas orais cujo conjunto dá forma à obra prima de Giovanni Boccaccio e se presta tanto a paradigma quanto registro documental do ascendente estrato social em germe ali: a burguesia.
No decorrer de seus cem episódios, Decameron transita entre a tragédia e a comicidade, a perspicácia e o erotismo, remetendo sempre à Florença do início do século XIV assolada pela doença. A narrativa apresenta uma construção hermética, na qual cada um dos jovens conta uma história por noite, durante dez noites.
Se me coubesse classificá-lo, diria que tratamos aqui duma novela – de minha parte, mais por questão de afasia que de gênero - de cunho particularmente didático, na medida em que procura desenvolver temas como a libertinagem e a hipocrisia, remetendo à narrativa moral, ratificando, ainda que muita vez por meio da irreverência, uma afirmação sólida do humanismo.
Me dói, desde a primeira leitura do livro, o ouvido. Além da óbvia intertextualidade entre este Decameron e As mil e uma noites, tenho a impressão – diga lá se discorda! - de escutar eco alto de nuances variadas do Decameron em textos feito O ensaio sobre a cegueira do Saramago e A Peste do Camus.
Pensando, por fim, em referências, vale ainda – e sempre – citar a adaptação cinematográfica homônima de Pasolini, na qual são esmiuçados nove dos cem episódios constantes da obra original.
Curiosamente, o foco da adaptação de Pasolini está nos episódios de caráter libidinoso do Decameron. Dos nove episódios do filme, cinco são, basicamente, contos eróticos, como aquele no qual Musetto, fingindo ser surdo-mudo, se deixa ser seduzido pelas freiras do convento no qual trabalha como jardineiro; ou o episódio de Peronella, que esconde o amante dentro dum jarro solicitado por seu marido e tem a pachorra de mandar ver com o outro enquanto o marido limpa o vaso; o de Caterina, que, após passar a noite com seu namorado, é perdoada pelos pais porque, afinal, Ricardo é um homem de posses; o episódio de Tingoccio e Meuccio, dois amigos completamente libertinos que acreditam que serão punidos após a morte por suas peripécias sexuais e, mais tarde, numa visão, têm a crença abalada a ponto de legitimar nova investida na esfera sexual; e o conto do padre que propõe a um homem transformar sua esposa em égua, ao passo em que, na verdade, manda bala na mulher do sujeito.
Se coube ao Decameron original a classificação na minha estante da narrativa didática, a adaptação de Pasolini parece, à primeira vista, um estandarte do sexo como símbolo da liberdade.
- Como assim, bicho?
- Ah, cara, um lance tipo Sonia Braga nA dama do lotação, saca?
Brincadeira sem graça à parte, verdade é que Pasolini, obviamente, vai além da questão estritamente erótica imediata: talvez possamos interpretar o sexo, as notórias cenas nas quais predominam a nudez e as genitálias, bem como aquelas nas quais a aproximação da lente ressalta sorrisos desdentados – embora derridam os derridentes -, rostos muito caricatos, excrementos humanos e tudo quanto for enumerado ali em âmbito escatológico, como recursos capazes de resgatar o humano no homem.
Possivelmente, a indagação final ("Por que realizar uma obra, se já é tão formoso apenas sonhá-la?") de Giotto, interpretado pelo próprio diretor, ratifique a idéia do resgate. É, ali, metalingüística a inquietação eterna do artista – Pintor/Cineasta.
Entendo que, além da óbvia coincidência onomástica e temática, o Decameron de Giovani Boccaccio e o de Pier Paolo Pasolini apresentam reflexões do ido para o porvir, pelo qual, indubitavelmente, se nutre expectativa mais ou menos otimista.
----------------------------------------------------------
Título: Il Decameron
Gênero: Comédia
Título: Il Decameron
Gênero: Comédia
Duração: 111 minutos
Lançamento: 1971
Lançamento: 1971
Roteiro e Direção: Pier Paolo Pasolini
----------------------------------------------------------
----------------------------------------------------------
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Terra Infecunda: sobre a saga literária de Santa Bruna Surfistinha no meretrício
Esclareço logo ao desavisado: sou mulher e, a despeito disso, gosto de literatura marginal, de brutalismo e menção ao escatológico.
Nesse lugar literário, pornografia e, sobretudo, pornofonia me agradam porque, feito dente quebrado e cicatriz, excetuando a gente frígida, o sexo humaniza.
Etimologicamente, berram teus músculos – filólogos graduados - ao segundo do orgasmo: viestes do húmus!
Não há epifania mais fecunda, eu acho.
Percebo, entretanto, neste universo erótico – talvez por ignorância de minha parte, falta de acesso ou, realmente, de produção discursiva feminina - a irritante presença hegemônica do homem.
Às mulheres – e, especificamente, às brasileiras -, excetuando umas poucas literatas ilustres, temos reservadas as páginas de revista masculina e folhinhas de borracharia, razão pela qual tive em mais alta conta a prostituta escritora Bruna Surfistinha antes mesmo de ler, em duas horas e meia, a versão digital em PDF, que me fora enviada por correio eletrônico, de seu "Doce veneno do escorpião".
Anticlímax.
Não encontro melhor definição para o livrinho ao qual me refiro.
Nada mais há a ser dito sobre as confissões duma prostituta na pós-adolescência que se mandou da casa dos pais depois de arrancar toda a grana dos velhos para convertê-la em pó, trabalhou em bordel de altíssima rotatividade, não tem papas na língua para descrever, nos mínimos detalhes, os meandros mais íntimos do sexo comercial e, no entanto, utiliza reticências para evitar a escrita por extenso da palavra "CU".
Alguém diz: ‘tá pegando no pé da moça; qual é o problema de usar três pontinhos no próprio orifício anal?
Respondo já: o problema é que puta desse naipe com medo de escrever cu não cola, a menos que não seja alfabetizada. Sendo, é inverossímil.
Cheguei à conclusão de que a Bruna Surfistinha não existe fora da biografia: tenho certeza de que é invenção de algum fã do José de Alencar decidido a dar voz à "Lucíola" após a derrubada das torres gêmeas porque, afinal, nem a Madre Teresa de Calcutá era tão carola.
‘A tomá no c...
terça-feira, 17 de março de 2009
Hipocondria
Ingênua fé na coerência - e numa verdade incorruptível, decorrente dela - me convenceu, desde cedo, a erguer altares e ungir correntes, teorias, partidos e gentes. E - penso agora - é provável que ingenuidade e comodismo floresçam na mesma árvore.
Certas decepções, entre as quais algumas constam desta Pobre Rima, tanto na esfera profissional quanto na político-partidária, foram e têm sido imprescindíveis para a operação particular diária à qual tenho dado seqüência aqui dentro de mim.
Muita pessoa pela qual nutro estima tornou e torna-se, com freqüência, paradigma ao qual devi fidelidade absoluta.
Dentro do absoluto, não há relativismo: se X trabalha pelo bem comum, já não me importa que faça uso de subterfúgios questionáveis. X tem meu apoio incondicional. Se Y tem sólida formação e posicionamento geral com o qual concordo, tem sempre razão. Y é modelo de conduta e opinião.
Parece, hoje, que a gente tem mesmo de ser outro antes de ser eu.
Certas decepções, entre as quais algumas constam desta Pobre Rima, tanto na esfera profissional quanto na político-partidária, foram e têm sido imprescindíveis para a operação particular diária à qual tenho dado seqüência aqui dentro de mim.
Muita pessoa pela qual nutro estima tornou e torna-se, com freqüência, paradigma ao qual devi fidelidade absoluta.
Dentro do absoluto, não há relativismo: se X trabalha pelo bem comum, já não me importa que faça uso de subterfúgios questionáveis. X tem meu apoio incondicional. Se Y tem sólida formação e posicionamento geral com o qual concordo, tem sempre razão. Y é modelo de conduta e opinião.
Parece, hoje, que a gente tem mesmo de ser outro antes de ser eu.
E tudo dói.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Das três horas de Benjamin Button
Sábado, impelida por meu instinto social – expressão equivalente a coerção –, fui, finalmente, assistir ao tal Curioso caso de Benjamin Button.
A longa fila à espera da compra de entrada no Cinemark do Shopping Villa-Lobos, a mim, inclinada a desistir antes de anuir, era razão suficiente para abortar a operação.
Entretanto, na boca do caixa, ao solicitar o bilhete de meia entrada, a atendente, em tom enfático de quem avisa amigo é, ratificou a duração de três horas da fita. Em virtude da razão elevada ao cubo, olhei - em tentativa dum último apelo do condenado ao algoz - a pessoa pela qual estava acompanhada. Não teve jeito.
Enquanto caía a iluminação e a gente toda murmurava, lembrei do comentário publicado pelo A. em seu Meio dedo de prosa a respeito da excessiva extensão do filme, e, procurando sossegar minha alma, recomendei a mim mesma que, se o filme fosse chato, dormisse e pronto.
Imagino desnecessário o relato de impressões e juízo pessoal sobre o Benjamin Button porque a simples descrição do que aconteceu comigo ali, sentada ao centro da sala de cinema número 3, parece bom resumo: do quinto minuto após o início do filme até o quinto minuto anterior ao letreiro final, chorei. Chorei copiosamente de comoção doída, chorei de reconhecimento, chorei de identificação, chorei de tristeza, chorei de alegria, chorei de mais não sei quê. Chorei quando o filme acabou.
Guardo para mim sempre a máxima do “quem fala demais dá bom dia a cavalo”, de modos que, em ocasiões nas quais não entendo do assunto, adoto a tática do silêncio.
Confesso que não li o conto de Scott Fitzgerald, não entendo de narrativa e estética fílmica, nunca dei a mínima para elementos como fotografia e maquiagem, o nome David Fincher era verbete sem descrição na minha enciclopédia mnemônica e, sinceramente, eu só lembrava da Julia Ormond chifrando o Arthur com o Lancelot na Tela Quente. A despeito disso e daquilo, discordo de meu querido A., embora tenha certeza de que ele, ao contrário de mim, entende de cinema, quanto ao filme de Fincher.
De tempos em tempos, corre uma mensagem eletrônica com um poema de autoria atribuída a Charles Chaplin, no qual está escrito, dum jeito bem bonito, que a vida da gente deveria ser ao contrário: tínhamos de nascer idosos reumáticos, atingir a maturidade com o corpo bonito, trocar rugas por sabedoria, morrer na doçura pueril. E é justamente isto o que acontece com Benjamin.
A protagonista do Curioso caso nasce velha e, aos oitenta anos, falece bebê de colo. Apesar de toda circunstância incomum – e, talvez, justamente em virtude de toda circunstância incomum -, Benjamin Button é a mais comum e humana protagonista cinematográfica à qual já assisti.
Aos cinco e aos setenta e cinco anos, Benjamin gosta de ouvir história. Feito eu e você, durante a vida, ele se apaixona e é amado, mas nem sempre; ele se aventura e se resguarda também; ele tem medo nalgumas ocasiões e se joga noutras; erra e acerta; magoa e é ferido; chora e ri; passa por momentos de euforia total e tédio completo; aprende e ensina. Tudo tem seu tempo na vida de Button.
Cada coisa, ali dentro da sala, tem seu tempo: oitenta anos na vida de Benjamin Button duram três horas. Uma filha conhece verdadeiramente sua mãe em três horas. Alguém descobre quem é num período de três horas. A leitura dum diário leva três horas. A agonia no leito de morte é de três horas. A chegada dum furacão demora três horas. A moça da poltrona vizinha toma seu refrigerante em três horas. Uns olhos permanecem grudados na tela por três horas. Eu chorei até desidratar durante três horas.
Do meio-dia às nove da manhã, em relógio no qual os ponteiros correm em sentido anti-horário, são três horas. Do meio-dia às três da tarde, marcadas por ponteiros em sentido horário, perfaz-se três horas, de qualquer maneira.
Três horas tomando cerveja em dia quente com amigos queridos são poucas. Três horas entristecidas no velório dum camarada estimado são muitas.
Não acho que qualquer referência temporal, das recorrentes expressões como “boa noite” ou “tudo tem seu tempo” à caracterização das personagens, tenha sido mera coincidência ali.
A narrativa fantástica do Curioso caso de Benjamin Button leva três horas para contar, de muito jeito curioso, a história do tempo que o tempo tem. A extensão do filme, portanto, é tão necessária quanto consoante plosiva em poema sobre bomba.
Contei, anteriormente, sobre meu pranto ali no cinema e não menti, mas omiti. A verdade é que chorei mais depois, mas, dessa vez, por outra razão: fiquei pensando no que tenho feito eu de todas as minhas três horas.
Acho que nasci velha.
A longa fila à espera da compra de entrada no Cinemark do Shopping Villa-Lobos, a mim, inclinada a desistir antes de anuir, era razão suficiente para abortar a operação.
Entretanto, na boca do caixa, ao solicitar o bilhete de meia entrada, a atendente, em tom enfático de quem avisa amigo é, ratificou a duração de três horas da fita. Em virtude da razão elevada ao cubo, olhei - em tentativa dum último apelo do condenado ao algoz - a pessoa pela qual estava acompanhada. Não teve jeito.
Enquanto caía a iluminação e a gente toda murmurava, lembrei do comentário publicado pelo A. em seu Meio dedo de prosa a respeito da excessiva extensão do filme, e, procurando sossegar minha alma, recomendei a mim mesma que, se o filme fosse chato, dormisse e pronto.
Imagino desnecessário o relato de impressões e juízo pessoal sobre o Benjamin Button porque a simples descrição do que aconteceu comigo ali, sentada ao centro da sala de cinema número 3, parece bom resumo: do quinto minuto após o início do filme até o quinto minuto anterior ao letreiro final, chorei. Chorei copiosamente de comoção doída, chorei de reconhecimento, chorei de identificação, chorei de tristeza, chorei de alegria, chorei de mais não sei quê. Chorei quando o filme acabou.
Guardo para mim sempre a máxima do “quem fala demais dá bom dia a cavalo”, de modos que, em ocasiões nas quais não entendo do assunto, adoto a tática do silêncio.
Confesso que não li o conto de Scott Fitzgerald, não entendo de narrativa e estética fílmica, nunca dei a mínima para elementos como fotografia e maquiagem, o nome David Fincher era verbete sem descrição na minha enciclopédia mnemônica e, sinceramente, eu só lembrava da Julia Ormond chifrando o Arthur com o Lancelot na Tela Quente. A despeito disso e daquilo, discordo de meu querido A., embora tenha certeza de que ele, ao contrário de mim, entende de cinema, quanto ao filme de Fincher.
De tempos em tempos, corre uma mensagem eletrônica com um poema de autoria atribuída a Charles Chaplin, no qual está escrito, dum jeito bem bonito, que a vida da gente deveria ser ao contrário: tínhamos de nascer idosos reumáticos, atingir a maturidade com o corpo bonito, trocar rugas por sabedoria, morrer na doçura pueril. E é justamente isto o que acontece com Benjamin.
A protagonista do Curioso caso nasce velha e, aos oitenta anos, falece bebê de colo. Apesar de toda circunstância incomum – e, talvez, justamente em virtude de toda circunstância incomum -, Benjamin Button é a mais comum e humana protagonista cinematográfica à qual já assisti.
Aos cinco e aos setenta e cinco anos, Benjamin gosta de ouvir história. Feito eu e você, durante a vida, ele se apaixona e é amado, mas nem sempre; ele se aventura e se resguarda também; ele tem medo nalgumas ocasiões e se joga noutras; erra e acerta; magoa e é ferido; chora e ri; passa por momentos de euforia total e tédio completo; aprende e ensina. Tudo tem seu tempo na vida de Button.
Cada coisa, ali dentro da sala, tem seu tempo: oitenta anos na vida de Benjamin Button duram três horas. Uma filha conhece verdadeiramente sua mãe em três horas. Alguém descobre quem é num período de três horas. A leitura dum diário leva três horas. A agonia no leito de morte é de três horas. A chegada dum furacão demora três horas. A moça da poltrona vizinha toma seu refrigerante em três horas. Uns olhos permanecem grudados na tela por três horas. Eu chorei até desidratar durante três horas.
Do meio-dia às nove da manhã, em relógio no qual os ponteiros correm em sentido anti-horário, são três horas. Do meio-dia às três da tarde, marcadas por ponteiros em sentido horário, perfaz-se três horas, de qualquer maneira.
Três horas tomando cerveja em dia quente com amigos queridos são poucas. Três horas entristecidas no velório dum camarada estimado são muitas.
Não acho que qualquer referência temporal, das recorrentes expressões como “boa noite” ou “tudo tem seu tempo” à caracterização das personagens, tenha sido mera coincidência ali.
A narrativa fantástica do Curioso caso de Benjamin Button leva três horas para contar, de muito jeito curioso, a história do tempo que o tempo tem. A extensão do filme, portanto, é tão necessária quanto consoante plosiva em poema sobre bomba.
Contei, anteriormente, sobre meu pranto ali no cinema e não menti, mas omiti. A verdade é que chorei mais depois, mas, dessa vez, por outra razão: fiquei pensando no que tenho feito eu de todas as minhas três horas.
Acho que nasci velha.
----------------------------------------------------------
Título: The Curious Case of Benjamin Button
Gênero: Drama/Fantasia/Romance
Título: The Curious Case of Benjamin Button
Gênero: Drama/Fantasia/Romance
Duração: 166 minutos
Lançamento: 2008
Lançamento: 2008
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth
----------------------------------------------------------
quinta-feira, 12 de março de 2009
E digo mais, compadre I
Era como, assim como podia também ser, outra qualquer. Mas, veja bem, mulher outra, que com homem, todo o mundo sabe, sempre tudo diferente dá. Mulher que é bicho pronto e dado, zápite-zúpite, à arrebatação de fazer perder arreio e sair mundo à delícia de mula destrambelhada, e não é?
Pois que então foi tudo às causas disso mesmo. Essa natureza de mulher, causadora de desgraça grande ali. E nem se diz pelas bandas que fosse Tadinha a canhota, se bem que tinha idéia torta mesmo, mas isso, enfim, como eu disse, é da e pra laia delas. A diaba não tinha teres com o Canho nenhum, não.
Assinar:
Postagens (Atom)
