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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Cordel do Jatobá

Na Escola Jatobá
Eu estudo com vontade
E um dia eu chego lá
Pra fazer a faculdade

E depois da faculdade?
Não há limite para mim
Eu vou ter mais liberdade
Pra ganhar o meu dim-dim

Depois de ganhar dim-dim
Vou comprar o meu carrão
Comprar uma mansão pra mim
E também um avião

Vou pegar meu avião
Viajar para o Sertão
E vou levar o João
Pra colher muito feijão

O João fez faculdade
Não foi pra colher feijão
Foi pra vir para a cidade
E virar um cidadão

O Deassis diz que feijão
Não é uma boa rima
Pra rimar com cidadão
Vou chamar a minha prima

Laurilene não é prima
É, sim, cunhada da Rita
Moça que eu tenho estima
É colega bem bonita

E por falar em beleza
Vamos falar já da Clô
Que eu digo, com certeza,
Até parece uma flor

Essa flor será regada
Com carinho e com amor
É uma professora amada
Que trabalha com fervor

Tem um professor careca
Vinicius é o seu nome
Será que usa cueca
Ou só tem de homem o nome?

Isso é uma brincadeira!
É história inventada
Professor é nossa bandeira
Nos desculpe a piada

Ele é um show de bola
Até parece um artista
Será que toca viola
Ou será um humorista?

Wilson é inteligente
E tem grande competência
Ele brinca com a gente
E da Arte tem ciência

Já o maestro de espanhol
É gordinho e inteligente
Ao contrário da Carol,
Fala língua diferente

Edson é o professor
Dessa língua estrangeira
Ele ensina com valor
Não fica de brincadeira

É bonita e inteligente
Nós vamos da Lu falar
E dá aula para a gente
Na Escola Jatobá

Não esquecendo da Jane
Que é uma grande educadora
Essa nunca entra em pane
Ela é uma vencedora

São pessoas importantes
Elas duas se dão bem
Suas aulas são interessantes
Seus alunos vão além

Vamos falar da menina
Das Ciências Naturais
Ela é uma coisa fina
Falando dos minerais

Edilaine é o nome dela
É uma moça bem sincera
E também é muito bela
Ela veio de outra esfera

A Marli é fundamental
E muito amada por nós
Ela é intelectual
Que nunca nos deixa sós

Indígena é o sangue dela
E o sangue nas veias corre
Uma grande guerreira é ela
De uma tribo que não morre

Eu vou contar pra vocês
Algo que aconteceu
A profª de português
Ela desapareceu

Carol é muito querida
Também amada por nós
Alegre, cheia de vida
Ela voltou logo após


(Alunas e alunos da EJA - Termo III - na E.M. Jatobá, Embu das Artes, em 2009)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

GENTE PORRETA UNIDA NUMA IDEIA SÓ

Dedicamos esse cordel
Aos nossos inspiradores
Os da terra e os do céu
E aos nossos professores


O jardim estava feio
Uma feiúra de dar dó
Mas a turma da EJA veio
Se uniu numa força só

Quando andava no jardim,
Eu olhava e não gostava
As plantas murchas no capim
Dança da poda começava

A poda é necessária
Para a planta renovar
Tem que ter adubo e área
Para o jardim respirar

A professora Clotildes
É uma moça inteligente
Veio com seu jeito humilde
Para orientar a gente

Os alunos e os professores
Juntos num encanto só
Plantaram, regaram as flores
Uma belezura só

Começamos a limpeza
Precisamos ajudar
Mulheres com sua beleza
Os homens pra reclamar

Junta pau, junta madeira
Para o lixeiro levar
Varre pra tirar a poeira
E o almoço começar

Na cozinha a Cristina
Só pensava em rebolar
“Lu”, gritou logo a menina
“O molho vai acabar”!

Macarrão estava pronto
Molho branco e avermelhado
Era meio-dia em ponto
Todo mundo enfileirado

Crianças foram servidas
E os adultos apressados
Enche o prato de comida
Pra deixar o bucho inchado

Na hora de lavar prato
Procurava e não achava
A Carol gritou no ato
E ela mesmo não lavava

Vinicius chegou atrasado
Com desculpa esfarrapada
Eita, homem azarado
No carro deu uma porrada

Na hora do nosso almoço
Desfalque, teve um só
Wilson roeu o osso
E acabou virando pó

Já que falamos em pó
Nesse dia do jardim
Cafezinho bom que só
Fez o Edson Quindim

Edilaine, professorinha
Com seu jeitinho inocente
Com sua história de bruxinha
Surpreendeu muita gente

Jane não trouxe peteca
Trouxe os filhos pra ajudar
Mas a criançada sapeca
Só queria era brincar

Brincadeira divertida
O mosaico sendo feito
A lajota foi moída
Trabalho saiu perfeito

Zé Cabral e Edmilson
Mexiam a argamassa
Sebastião e Wilson
Sentados fazendo graça

Deu um trabalhão danado
Quis sair em Disparada
Que trabalho complicado
Manter a voz afinada

Quando chega na “boiada”
O Adão se atrapalha
Todos caem na gargalhada
Jane e Lu corrigem a falha

Jane com suas invenções
Os alunos enlouqueceu
Com muitos, vários puxões
O teatro aconteceu

Já passava lá das sete
Professores não chegaram
Célia gritou para Bete
“Vê se todos assinaram”!

A turma foi dividida
Termo um, dois, sala oito
E a bagunça reunida
Aribaldo fica afoito

Dia da feira cultural
O mundo fantasiado
Foice, marmita e pau,
E o coral fica afinado

No teatro lá na feira
Todo mundo arrumado
Jane organizou a fileira
Uns de branco, outros drogados

Depois da apresentação
Todo mundo emocionado
Carol chorava no chão
Lázara do outro lado

E esse é o final do cordel
Dos alunos da sala nove
O povo não vai pro céu
Muito menos se comove

Se você não acreditou
Na força da nossa turma
Agora a gente já editou
Você lê, relaxe e durma!


(Alunos e alunas da EJA - Termo III - na E.M. Elza Marreiro Medina, em Embu das Artes, no ano de 2007)

sábado, 14 de agosto de 2010

Par

O Tempo, que um só é,
só um intento a seus filhos prometeu:
engolir.

E qual artimanha contra irrevogável pai?

Sê dois, isso acontece (também pode).


Assim a Natureza escapa à Morte.

sábado, 24 de julho de 2010

Recordações duma impossível Paraíba

Despertar ao canto da ninfa
(míope, nua, tambabesca) e cão vadio enluarado
Com preguiça de acordar;
Provar dum café amargo
Quem passou foi Nazaré.

Dia de céu.

Irromper dura batucada
Sobre mochos e atabaques
– entre o couro e a madeira mora o sol.

Sono.
Requebrar doce da morena.
Sururu contra a ressaca.
Serra Limpa (natural).

Pra comer, ovo cozido,
A vestir, algodão cru.

Lua cheia: o mar arrebenta no teu sovaco.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Comunicação

(Para o coprófago R., com figos)

Só as coisas encantam
(mesas, cadeiras, parafusos, relógios)
Como as coisas.

Sobre um velho sofá de couro na sala de espera do ginecologista
Salivei

Vontade de morder o sofá de couro do ginecologista
E os olhos

Enojaram o sofá de couro
E o monte de doença venérea que já ali sentara seus fluidos fétidos

Quis comer o sofá

Feito bicho vivo

Coisa. Só.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Soneto do irremediável

Disposto ao sacrifício expiatório,
Ao largo da efeméride, o suspiro
Do arcanjo sem lugar ao oratório
É canto sobre o qual ainda me estiro.

A pena, em qual gesto tão simplório,
Suspende-se ondulante ao papiro
E, acato ao uso do peremptório,
Preparo, aponto, fogo – eu atiro!

Não vão, entretanto, já suficientes
Detrás da mesa, tinta e evocação
Se pólvora maior se me abrasa

O ar e em espiralo inconsciente
Sou anjo e eu, cuja dita canção
Aleija mais que o farfalhar da asa...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Oásis

Do deserto, os ossos:
Areia
Pedra
Sal.

Na charneca, o beduíno sonha azul.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Carla e Michel

"Carla, come ti amo
questa canzone parla italiano
Carla, come ti amo..."
(M. Simioni)

Há poema aliança de noivado desfeito:

Um dente,
uma pulseira,
ou anel de casamento.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Marchinha cinzenta

É vento de sal
Vontade de céu
O fusco de sol

[Boca do tubo]

De giro abissal
Rasgado corcel
Desfaz-se lençol

[Surdo gemido]

No corpo, ter sal
Na boca, ter céu
Nos olhos, tersol

[Final da euforia]

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Estampa

Dentro dos teus braços
Sob a chuva de verão
Sempre é carnaval

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

À flor da pele

Abrem-se os botões
Ao toque primaveril
Os seios florescem

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Ensaio sobre o Tempo*

Criança pequena
não quer tabuada:

No oráculo vítreo
a Morte é um numérico
múltiplo de cinco



*(mote sugerido pela Tertúlia Virtual)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Batalha naval*

A toda sorte de garrafais
letras embriagadamente
biquinscritas em frágeis cascos
de papel
Náufragos seríamos
Éramos
Estávamos
De Lapa
De Rio
De Fato
De Porre
De Tudo
(e de sina também).

Não sou porto-seguro,
Sou pirata caolho.
Não és terra à vista,

és poeta, maneta.


*(jan./2003)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Duma cerveja onírica em Münch

Esvaiu-se todo canto
no cantar tempo sombrio

Qualquer dia te escrevo.


A felicidade extermina,
diariamente, seis milhões
de novos poemas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Lição de Guiar - apontamento

À noite verificamos
fundamental a tração
na oscilação entre o
Vale Florido e o Pico
Rochoso - Dedo de Deus.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Lição de Guiar

Da rodovia cervical ao quebra-mola
todos teus caminhos convergem à acentuada
rampa.

Que a marcha seja lenta e ininterrupta
da planície até o curvo pico,
cume.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Princesa não ronca

Na história das fadas
O beijo é convite

À emersão do sono

sábado, 17 de janeiro de 2009

Couvert indigesto

Devorei zilhões de livros
Degluti dez mil palavras
Regurgito em litros métrica
Ainda arroto poesia
Mas a rima
Alimentar
Peristal
titica
D
U
O
D
E
N
O
A
B
A
I
X
O

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Devaneio na boca


"Na boca, na boca!" (Manuel Bandeira)

Quero morrer de tiro levado
Tiro bem dado de lança ligeira
Arma certeira, veneno que injeta
Ponta de seta a furar corrente

Quero, depois, que a corrente me leve
Sou destemida, meu bote é de aço
Não enferrujo, não quebro nem rasgo
Naufrago barato no curso do rio

Quero uma vida (depois dessa outra)
Co'a mesma voragem o igual turbilhão
Me deixo fugir, não preciso ser solta
Da cela em que a seta me encarcerou

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Kipá

Anteposto ao homem, o solidéu hebraico
Na hierarquia cósmica da Antigüidade
Ao Deus de Abraão assegurou onipotência

Pela mãe bordado
À hora de dormir
Tarde em Ashkelon

O quepe verde oliva das forças armadas
Sob ar condicionado em gabinete bélico
Laureia diariamente seus deuses modernos

High Tecnology
Always at the time
Made in U.S.A.