sábado, 14 de agosto de 2010

Par

O Tempo, que um só é,
só um intento a seus filhos prometeu:
engolir.

E qual artimanha contra irrevogável pai?

Sê dois, isso acontece (também pode).


Assim a Natureza escapa à Morte.

sábado, 24 de julho de 2010

Recordações duma impossível Paraíba

Despertar ao canto da ninfa
(míope, nua, tambabesca) e cão vadio enluarado
Com preguiça de acordar;
Provar dum café amargo
Quem passou foi Nazaré.

Dia de céu.

Irromper dura batucada
Sobre mochos e atabaques
– entre o couro e a madeira mora o sol.

Sono.
Requebrar doce da morena.
Sururu contra a ressaca.
Serra Limpa (natural).

Pra comer, ovo cozido,
A vestir, algodão cru.

Lua cheia: o mar arrebenta no teu sovaco.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Comunicação

(Para o coprófago R., com figos)

Só as coisas encantam
(mesas, cadeiras, parafusos, relógios)
Como as coisas.

Sobre um velho sofá de couro na sala de espera do ginecologista
Salivei

Vontade de morder o sofá de couro do ginecologista
E os olhos

Enojaram o sofá de couro
E o monte de doença venérea que já ali sentara seus fluidos fétidos

Quis comer o sofá

Feito bicho vivo

Coisa. Só.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Dadá

C. diz:
--bicho, como esse Carlos Vereza escreve mal!
D. diz:
--Carlos Vereza?
--Escrevendo antidrogas?
C. diz:
--é impressionante. Eu tenho um preconceito contra (ou favorável a) esses atores mais velhos, sabe? Penso que todos são leitores ávidos, bons escritores.
D. diz:
--Ah, são sim.
--Só na sua cabeça nostálgica.
C. diz:
--olha o primeiro enunciado num post do blog do cara: "Volto à equação: O Irã,possue foguetes de médio e longo alcance."
D. diz:
--Show de horrores.
--Isso é sério?
C. diz:
--isso É sério.
--aí, num outro post, ele recomenda que os petistas leiam Hegel.
--ele leu Hegel?

-
--Ele sabe ler?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

13-14/04/10

---Um banheiro público de paredes brancas e limpas, com dois ou três lavatórios e, possivelmente, espelhos. Eu ali ao centro vejo, anteposta e de costas, a uma das pias, uma mulher vestida de preto, um pouco gorda, a minha esquerda. Penso que seja negra. À direita, Laura escova os dentes, acho. Jogo uma bolinha de papel higiênico no ralo da pia à esquerda. A mulher de preto deve ficar brava. Não lembro por que jogo o papel ou se recolho. Ela sai do banheiro. Estou à pia esquerda, antes ocupada pela mulher de preto. Imagino que eu escove os dentes agora. Laura diz alguma coisa; talvez me aconselhe. Ela sai do banheiro. Não tenho certeza.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Oxímoro

---Uma professora com a qual eu trabalho contou, chateada, que está feliz por ter engravidado:
---- Nunca quis filhos. Meu namorado está desempregado. Tenho horror a criança. Não tenho casa. Odeio meu trabalho. A Secretaria Municipal de Educação publicou uma portaria que proíbe a entrada de gestantes em sala de aula, de modos que lerei, a partir de hoje, Em Busca do Tempo Perdido.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Whatever Works

---- oi... quer ir ao cinema comigo (rosto com espinhas e pernas trêmulas, talvez aparelho nos dentes e boletim amassado ao fundo da mochila)? é que... bem, (tomado de coragem, tanta que o rosto cora e quase têm combustão espontânea três das maiores espinhas) vai passar o filme do Woody Allen, e daí que... (nova erupção cutânea)... que eu gostaria de ver contigo. (respira entre o aliviado e o destruído: muita endorfina)
---- (Chiclete na boca, olhar vago. Pára de mascar a goma, abre o sorriso pra um lado só, constrangida:) Tenho prova de inglês amanhã.
---- (chuta uma lata imaginária - e também o movimento de chutar é imaginário, mas, ainda assim, o chute fora forte)... é... eu sei... não, não... não sei... é que... bem, é... eu entendo... (imbecil, não sabe ainda improvisar de modo arrasador).
-
(só o imbecil do autor dele é que acha que sabe fazer isso... mais jovem que o adolescente!)
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---- Então tá. A gente se vê.
---- é... olha, mas e depois da prova? ou no dia seguinte, sei lá... (o tolo apela, está simbolicamente de joelhos... e logo descobrirá que essa é uma condição simbólica comum diante de mulheres; se descobrir cedo, se cura, mas deve ser, como a maioria, mais um condenado)
---- No dia seguinte, tem a de geografia.
---- (ele xinga pela primeira vez de modo quase audível, mas segura a onda num pigarro) tá... geografia é fogo mesmo... (um beijo pra quem acertar que tipo de amarelo é o de seu sorriso patético) o filme ainda não saiu... de repente, dá tempo de cair numa semana sem provas... mas seria legal se... sei lá, a gente já combinasse antes... pra, pra, sei lá, pra já saber quando ir, né?
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(ele sabe que só falou merda)
-
---- Olha... (e olha com o rabo do olho a vizinhança, pra ver quem passa) por que você não me liga pra combinar?
---- (cincoentas copacabanas de fogos de artifício!, ele sabe que não pode dar bandeira, mas o rosto já, babacamente, o entregou)... pô... legal... é, a gente se liga, sim... quer dizer, te ligo, sim! tem caneta? não, peraí... (já apresenta afobamentos típicos de cachorro quando revê o dono) eu acho que tenho aqui na mochila!... (e fica remexendo aquele antro de papéis amassados, encontra uma caneta)... é, pode dizer o número!
---- É... cincossetemeiassetecinconovedoisdois. Preciso ir.
---- tá... (e ele pensa, pela primeira vez, em metafísica: por que o tempo é inexorável se meu espírito ganha âncora nessas horas e trava tudo?)
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(mas, no fundo, só vai pensar nisso, desse jeito, cinco anos depois)
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---- Então, tchau.
---- ei, calma...
---- Fala.
---- é... poxa, nem se despede e já vai embora assim (não, ele não está falando isso. por dentro, o superego joga uma bacia de óleo escaldante no seu baço)...
---- Eu preciso ir mesmo. Combinei de estudar com a Mari.
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(derreteu... é magma puro por dentro)
(uma parte dele, a mais besta, tem orgulho)
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---- Se você quiser, vamos andando juntos.
---- tá!
---- Aí você vai falando. Porque tô com pressa mesmo.
---- (de novo, canino babão) eu?... é... a Mari mora longe?
---- Umas cinco quadras. Olha, se não quiser ir, tudo bem. Eu ando mais rápido sozinha.
---- (desta vez, xinga de filha da puta, mas é interno mesmo. e começa a reconhecer-se humilhado - enfim! - mas anda ao seu lado)... eu também ando rápido... é... (bufa um cadinho, ela anda rápido mesmo)... você já viu muitos filmes do Woody?
---- Não. Vi poucos. Por quê? Você é fã?... Esse cara comeu a própria enteada!
---- (ele, desta vez, não se confunde, mas tem medo do que vai dizer... vai dizer e diz)... é, mas eles se apaixonaram! eu acho que, porque se apaixonaram, é justo, quero dizer, cê entende (bobo, um dia aprenderá que, nessa história, o gostoso está mais no delito do que no amor - do delito nasce o amor)! mas não sou fã, não... só gosto muito.
---- É, talvez você tenha razão... eu adoro arrosapurpuradocairo. Já vi um monte de vezes.
---- um monte de vezes? (ele começa a desconfiar dela... inclusive, leva um susto: ela gostou do que ele disse!... acho que daria merda... recupera o amor bobo) legal...!... é... gosta de Tudo que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar? é legal também! (ele sabe que está exagerando no legal... mas é foda, tão difícil falar, porra...)
---- Gosto bastante. Tenho esse também.
---- (caramba! ele quica por dentro!)... é mesmo?! pô, que maneiro! (enfim, saiu do legal, mas voltou ao cachorro babão)... cara, eu nunca conheci uma menina que gostasse tanto assim dele!
---- Minhas amigas acham bobo...
---- mas você gosta, né?
---- mas... é. Eu acho legal, como você diz. Legal.
---- (ela percebeu!... que merda!... ele não sabe onde está sua parte derretida, queria se juntar a ela)... é... legal mesmo... maneiro... você está parando o passo, é aqui? mas achei que fosse mais pra lá e... (o radar dele se confunde)
---- É aqui.
---- ah... (coração, que bateria seria? Mangueira, Vila Isabel? ele jamais descobrirá...) foi bem leg... bem l... bem interessante te acompanhar... deu pra descobrir essas coisas do Woody... gostei!
---- Tá... então a gente se fala amanhã.
---- tá! (amanhã? ele ouviu amanhã?... mas que babaca, isso é só expressão... amanhã?!)... então, tá... a gente se fala...
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----(num meio sorriso, entra no prédio da amiga; ao elevador, encosta na parede metálica e escorre, sentada, até derreter no chão. no rosto, sob o fichário, um sorriso largo assim)
----(ele fica olhando e segue parado... queria ter beijado, queria ter sido mais eloquente, queria ser Ramsés, queria o zaralho e mais... no final, ficou o sorriso. e ele, enfim, entendeu que nem adianta tentar... desde então, estava lascado - jegue mate, xeque marte)
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---Ser adolescente é bom porque garante inveja às outra faixas etárias: anteriores e todas as mil posteriores.
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© Editora Quatro Mãos, incluindo, sobretudo, as habilidosas direita e esquerda de F. Eugênio dos Santos Silva, em janeiro de 2010