Disposto ao sacrifício expiatório,
Ao largo da efeméride, o suspiro
Do arcanjo sem lugar ao oratório
É canto sobre o qual ainda me estiro.
A pena, em qual gesto tão simplório,
Suspende-se ondulante ao papiro
E, acato ao uso do peremptório,
Preparo, aponto, fogo – eu atiro!
Não vão, entretanto, já suficientes
Detrás da mesa, tinta e evocação
Se pólvora maior se me abrasa
O ar e em espiralo inconsciente
Sou anjo e eu, cuja dita canção
Aleija mais que o farfalhar da asa...
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Carla e Michel
"Carla, come ti amo
questa canzone parla italiano
Carla, come ti amo..."
questa canzone parla italiano
Carla, come ti amo..."
(M. Simioni)
Há poema aliança de noivado desfeito:
Um dente,
uma pulseira,
ou anel de casamento.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Nunca li Julio Cortázar
---Eu disse nunca li Julio Cortázar e - porque sou dada à invencionice, pensei – a gente se apiedou em muxoxos e recomendações variadas.
---Fazem assim e eu fico indignada, com cara de natureza morta. Sinto-me profundamente atingida nesses rodeios literários nos quais citam Ibsen ou Joyce ou qualquer autor que figure entre os malditos clássicos deles sobre os quais eu ainda não tenha passado meus olhos por preguiça ou pura incompetência. Antes falassem em futebol.
---Acontece que ganhei na última semana uns créditos na Livraria Cultura, que troquei por um livro do García Márquez – ainda o Projeto Chapolim em Cartagena das Índias - e o “Divertimento”, do bendito Cortázar, embora me tivessem recomendado entusiasticamente seu Jogo da Amarelinha – que me custaria o triplo do preço.
---O livro é experimental, é lírico. Engraçado, às vezes.
---Tive impressão, ontem à noite, de ter lido Oswald de Andrade Pubescente.
---Divertimento.
---E nunca li Julio Cortázar.
---Fazem assim e eu fico indignada, com cara de natureza morta. Sinto-me profundamente atingida nesses rodeios literários nos quais citam Ibsen ou Joyce ou qualquer autor que figure entre os malditos clássicos deles sobre os quais eu ainda não tenha passado meus olhos por preguiça ou pura incompetência. Antes falassem em futebol.
---Acontece que ganhei na última semana uns créditos na Livraria Cultura, que troquei por um livro do García Márquez – ainda o Projeto Chapolim em Cartagena das Índias - e o “Divertimento”, do bendito Cortázar, embora me tivessem recomendado entusiasticamente seu Jogo da Amarelinha – que me custaria o triplo do preço.
---O livro é experimental, é lírico. Engraçado, às vezes.
---Tive impressão, ontem à noite, de ter lido Oswald de Andrade Pubescente.
---Divertimento.
---E nunca li Julio Cortázar.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Da solidão
---Em ritmo de férias, ontem terminei de ler “Sinto-me só”, de Karl Taro Greenfeld, jornalista nipo-norteamericano aparentemente inexpressivo sobre o qual nunca tive notícias.
---Greenfeld apresenta aqui um relato autobiográfico da vida familiar, desde os anos 60 até hoje, em torno de seu irmão mais novo, Noah, um autista de nível severo, ou baixa funcionalidade, conforme descreve o jornalista.
---Embora obviamente não tenhamos em mãos um primor literário, tenho três razões para indicar a boa leitura de “Sinto-me só”:
---Em primeiro lugar, o irmão mais velho de Noah procurou permear toda sua história por informações interessantes e curiosidades sobre pesquisas e métodos relacionados ao autismo em áreas diversas, como a psicologia e a genética. Foi descoberta para mim, por exemplo, a história de que Bruno Bettelheim, exilado nos Estados Unidos da América do Norte ao fim da Segunda Guerra Mundial, inventara um currículo primoroso - e falso - sobre o qual os estadunidenses babaram durante décadas, ou que a teoria de Skinner, relacionada ao condicionamento operante – ou adestramento -, estivesse ainda em voga no que tange a educação de autistas. Ao final do livro, estão incluídas entre a bibliografia as fontes destas informações, às quais deverei recorrer tão logo diminua a pilha de livros na minha cabeceira.
---Não bastassem as informações teóricas, em seu livro, Greenfeld procurou relatar a realidade prática da vida cotidiana de autistas como seu irmão e demais deficientes em instituições públicas de atendimento – ou aquilo que chamaríamos, na melhor das hipóteses, assim – a estas pessoas. Há senhores ali abandonados à própria sorte. Gente violentada, surrada, sem família, sem mecanismo algum de linguagem pelo qual seja capaz de se comunicar. É um soco no estômago de quem, feito eu, leva uma vidinha perfeita e se sente à vontade para criticar os pais cansados de Noah, que não encontraram outra alternativa senão a de internar seu filho num lugar de pesadelo sem fim. Razão suficiente para afirmar que “Sinto-me só” não é nada mau.
---Ao fim – e, se há alguma beleza literária na obra de Greenfeld, ela deve residir justamente neste ponto -, há a catarse, último motivo pelo qual indico a leitura.
---Por meio dum dispositivo literário barato, o narrador nos leva a padecer de sua própria angústia. De repente, somos convidados a compartilhar e fazer projeções otimistas sobre o futuro obscuro de alguém com profundo comprometimento mental.
---Greenfeld apresenta aqui um relato autobiográfico da vida familiar, desde os anos 60 até hoje, em torno de seu irmão mais novo, Noah, um autista de nível severo, ou baixa funcionalidade, conforme descreve o jornalista.
---Embora obviamente não tenhamos em mãos um primor literário, tenho três razões para indicar a boa leitura de “Sinto-me só”:
---Em primeiro lugar, o irmão mais velho de Noah procurou permear toda sua história por informações interessantes e curiosidades sobre pesquisas e métodos relacionados ao autismo em áreas diversas, como a psicologia e a genética. Foi descoberta para mim, por exemplo, a história de que Bruno Bettelheim, exilado nos Estados Unidos da América do Norte ao fim da Segunda Guerra Mundial, inventara um currículo primoroso - e falso - sobre o qual os estadunidenses babaram durante décadas, ou que a teoria de Skinner, relacionada ao condicionamento operante – ou adestramento -, estivesse ainda em voga no que tange a educação de autistas. Ao final do livro, estão incluídas entre a bibliografia as fontes destas informações, às quais deverei recorrer tão logo diminua a pilha de livros na minha cabeceira.
---Não bastassem as informações teóricas, em seu livro, Greenfeld procurou relatar a realidade prática da vida cotidiana de autistas como seu irmão e demais deficientes em instituições públicas de atendimento – ou aquilo que chamaríamos, na melhor das hipóteses, assim – a estas pessoas. Há senhores ali abandonados à própria sorte. Gente violentada, surrada, sem família, sem mecanismo algum de linguagem pelo qual seja capaz de se comunicar. É um soco no estômago de quem, feito eu, leva uma vidinha perfeita e se sente à vontade para criticar os pais cansados de Noah, que não encontraram outra alternativa senão a de internar seu filho num lugar de pesadelo sem fim. Razão suficiente para afirmar que “Sinto-me só” não é nada mau.
---Ao fim – e, se há alguma beleza literária na obra de Greenfeld, ela deve residir justamente neste ponto -, há a catarse, último motivo pelo qual indico a leitura.
---Por meio dum dispositivo literário barato, o narrador nos leva a padecer de sua própria angústia. De repente, somos convidados a compartilhar e fazer projeções otimistas sobre o futuro obscuro de alguém com profundo comprometimento mental.
---Sinta-se só.
domingo, 30 de agosto de 2009
A Bola
Na última sexta-feira, completei duas semanas de trabalho numa escola da Prefeitura Municipal de São Paulo.
Esta rede de educação, aparentemente mais organizada do que aquela outra na qual trabalho e sobre a qual já teci uns comentários quaisquer também nesta Pobre Rima, efetivou recentemente todos os últimos aprovados no concurso realizado em 2007 e, nesta leva, virei funcionária do famigerado Gilberto Kassab.
Embora minha querida colega Marli tenha afirmado que trabalho num tal Dom José, segundo o Oráculo a escola na qual entrei fica no Capão Redondo, Zona Sul do município.
Cumpro ali vinte e três horas semanais de trabalho; três horas de atividades diversas, feito seleção de textos, preparação de aulas e correção das produções textuais da molecada, além de vinte horas de aula, nas quais cubro os professores, da quinta à oitava série do Ensino Fundamental regular, que eventualmente venham a faltar - coisa freqüente, diga-se de passagem.
Um dia desses, faltou a professora de Educação Física, única disciplina na qual, em caso de cobertura, não há acordo: os meninos têm uma energia incontrolável que a gente cansada de tudo insiste em chamar de violência, mas tenho ultimamente, cá pra mim, entendido como força motriz mal empenhada.
A despeito desta espécie de observação particular, enfim, cobrir aulas de Educação Física propondo discussões sobre poética modernista ainda não figura entre minhas maiores habilidades. Por isso, consultei a coordenadora pedagógica acerca da possibilidade de levar uma turma de oitava série até o pátio para que os meninos jogassem bola. Deu certo.
Enquanto uma turminha menos afeita à atividade física jogava Detetive debaixo da escada, desenvolvendo a musculatura ocular, a garotada mais ativa se empenhou num futebolzinho despretensioso, com quatro mochilas lançadas às extremidades da quadra onírica fazendo vez das traves.
Tudo tranqüilo até o momento em que a honesta pelada dos meninos sofreu abrupta interrupção: um deles, numa bica desmedida, lançou a bola ao teto, sustentado por canos metálicos entrelaçados, entre os quais o objeto ficou preso.
Em princípio, nosso pequeno zagueiro sofreu retaliações verbais. Na seqüência, olhares românticos foram lançados ao roliço desejo inalcançável. Depois, aquela que andava esquecida no fundo da gaveta mnemônica da molecada virou o céu contemplado na hora do aperto: o que fazer, professora?
A santa era eu. E eu, justamente naquele minuto mágico tanto reclamado pela classe docente, não fazia idéia do que fazer.
Sou um macaco: dispomos de instrumento?
Sou um macaco: dispomos de instrumento?
Um rapaz corre até algum lugar desconhecido e volta munido de vassoura. Nesse ponto, o pessoal do Detetive já largou a brincadeira e a galera da limpeza observa, em olhares claros de reprovação, a bola, a turma, a vassoura e, obviamente, a professora desleixada.
O garoto desenrosca o pente da vassoura e joga quatro, cinco vezes, aquele pedaço de pau pro alto. E eu prevendo um homicídio culposo, um rosto caolho, o desembolso duma grana numa vassoura nova. Os colegas ofereciam, solícitos, sugestões diversas: joga mais alto! Alguém monta no ombro dele! Sobe em cima da mochila! Enrosca o pente na vassoura! Tudo acatado e a bola ali, dona da história, pilantra fazendo pouco caso de todos nós.
Em resumo, passamos cerca de trinta minutos nesse jogo até que uma mesa, um menino, uma mochila, uma vassoura e uma turma duns trinta adolescentes acabassem vencendo a partida àquele dia.
Desde que o sinal tocou, às 11:15 da quinta-feira, até agora, há algo que me encafifa e, provavelmente, me tirará o sono durante uns anos, na melhor das hipóteses: como faço pra meter, em cada aula, ali naquele vão, uma bendita Bola?...
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Memória fotográfica
A Lu, minha colega de trabalho entre as paredes da escola, propôs que desenvolvêssemos durante esse semestre um projeto interdisciplinar com base em fotografias. Nosso aluno fotografaria aquilo que, sob seu ponto de vista, é pertinente a um tema gerador específico. Pra começar a etapa da sensibilização, cada professor do grupo deverá, ao primeiro dia de aula, adiado em virtude da Gripe Suína, expôr uma fotografia nalgum canto da escola.
Hoje vim fuçar meus arquivos fotográficos e descobri que, ao contrário de vocês, eu nunca fui feliz sem que soubesse.
Assinar:
Postagens (Atom)
